Na hora da criação – Técnica, Teoria e Sentimento

“Realmente acho que não precisava da faculdade de Audiovisual para aprender” e “Nosso curso é muito várzea” eram frases que ouvi com frequência durante e após a conclusão do curso de Audiovisual na USP.

E se tínhamos na minha classe a turma do “filme de arte” e a do “filme hollywoodiano” que apresentavam diversas divergências em relação a estética e o porquê da criação audiovisual, um fator que unia a opinião de todos era uma certa descrença no curso que fazíamos. Sentíamos que o autodidatismo era o que sustentava o nosso aprendizado e essa era a sensação que praticamente todos tinham.

Em 2016, embalado pelo Mundo Cabe em SP e outros projetos sociais, comecei a dar aulas de fotografia e composição de imagens gratuitamente. Durante a preparação das aulas, eu comecei a refletir sobre o curso da USP e sobre todas as discussões que fiz com meus amigos sobre o aprendizado do audiovisual e sobre como começar a criação de uma obra. 

Lembro de discutir com pessoas de outros cursos como a UFRJ, UERJ, UNICAMP, UFSC, Unesp, Roma Trè, entre outros, e sempre ouvia iguais reclamações, diferentes motivos e razões, mas no geral havia uma tendência a não gostar da estruturação do curso. “Temos apenas aulas teóricas”, “Queria produzir mais”, “Sinto falta de mais base teórica”, “Aqui não tem mercado”, “Falta equipamento”, entre outras coisas.

O curso que fiz, sinceramente, acredito que foi bem equilibrado em todos esses quesitos, mas MESMO assim nós reclamávamos. Por que? 

Eu acredito que a reclamação está ligada a insegurança. Fazer coisas criativas como o audiovisual envolve muitas coisas e muitas áreas tornando o ato de criar bastante desgastante.

Costumamos nos sentir insuficientes, pois, as vezes, parece que nos falta técnica, equipamentos, teoria ou simplesmente apoio pessoal ou mercadológico/financeiro. E quando vamos criar pensamos no som, montagem, atuação, roteiro, fotografia, entre outros. Abrindo muito espaço para termos travas criativas. Será que está muito obvio? Será que é muito pretensioso? Pra que estou contando essa história? Será boa? Relevante? Criativa? Inovadora? Será que estou muito técnico? Será que comunica?

Como Ira Glass, criador de This American Life, fala em seu texto/depoimento “The GAP”, pessoas criativas passam vários anos de suas vidas se sentindo insuficientes, pois a sua criação nunca chegará a ser tão boa quanto seu bom gosto e esse vão entre o requinte pessoal e a sua capacidade que gera a angústia. A grande questão é aceitar o fato, entender essa grande busca e tentar sempre se aperfeiçoar. Entretanto tenha consciência que haverá dúvidas, questionamentos, stress, riscos e medo.

E o que é mais importante para o aprendizado e para criação: técnica, prática ou teoria?

Segundo um amigo, a noção técnica e o conhecimento das ferramentas que permitem a desconstrução e o entendimento de uma obra é o mais importante. Concordamos no fato que a desconstrução de obras que gostamos seja o caminho ideal para o aprendizado de cinema, mas eu realmente acredito que as discussões teóricas sejam de igual importância para conseguir alcançar essa desconstrução. (até por que as discussões teóricas também acabam sendo uma progressão técnica)

Muitas vezes quando desenvolvo um projeto ou um conceito parto de caminhos completamente variados. As vezes me pauto simplesmente na experiência de uma técnica ou um direcionamento baseado em algo simplesmente estético. Outras vezes me conduzo de forma 100% baseada no discurso e em ambos os casos com o desenvolvimento vamos adicionando outras camadas e complementando com conceitos aonde só há técnica ou adicionando técnica aonde só há conceitos.

Acredito que não há caminho correto, mas o importante é não abandonar um dos lados e sempre ter consciência de ambos, mas confesso que sou uma pessoa que funciona bastante no instinto e nos sentimentos. E o que me guia realmente é o como estou me sentindo para depois desconstruir o porquê me senti dessa forma.

E é claro, sempre por em prática suas ideias, pois só assim saberá o que funciona ou não.

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